NOTAS DE UM VELHO SAFADO * (Ví, gostei e dou de presente pra vocês)

Tom Blake, pensando no Duke, quem sabe ?
 
* Titulo emprestado por Bukovski
Bons papos começam com perguntas ridiculas.


Por que surfar só com essas pranchas sem quilhas ? digo eu, meio já sabendo a resposta.
Derek Hynd responde com sarcasmo e alguma superioridade,
Eu tava cansado de saber que iria completar cada onda surfada... Precisava de alguma coisa nova, incerta, desafiadora.
Franzi as sobrancelhas representando grande interesse e fagulhas de confusão,
Esse problema, Derek, eu nunca tive. Onde eu moro as ondas são incertas e desafiadoras- na maior parte das vezes uma merda. Voce tem sorte de ter ondas boas aqui perto. 
Claro, concordou com seu olho de vidro arregalado, no Rio voce não poderia fazer isso. Voce precisa de ondas perfeitas.
Ali encerrou meu interesse pelas pranchas sem quilha do Derek Hynd.
Minha relação com o surfe foi toda construída em cima da incerteza e qualquer tipo de perfeição me apavora pela monotonia.
Uma das principais coisas que o surfe me deu, foi justo essa capacidade de acreditar que mesmo numa situação terrivel, ondas fechando, vento torto, maré errada, voce é capaz de se divertir.
E não apenas diversão, que é o mais infantil dos prazeres, mas tambem algo ainda mais glorioso, algo que te empurre pra cima e te faça tão bem que no resto do dia ninguem arranca um sorriso debochado do seu rosto.
Nesse momento suspenso da conversa, o amigo do Derek comenta que comprou uma revista de surfe (The Surfer’s Path, edição 76) no aeroporto e lera uma supreendente entrevista com ele.
Poxa, voce diz que Tom Blake arruinou o surfe quando meteu uma quilha na prancha e fudeu com tudo... Diz o camarada.
Senhor Hynd mordeu sua tira de peixe empanada (tudo é empanado na Australia) e nem pestanejou ao responder.
Aquele cara nunca tinha visto mar na vida!
Era um caipira de rio, tipo Huckleberry Finn (Mark Twain, EUA, 1884), só conhecia barcos.
As pranchas não tinham quilhas porque voce precisava de um total envolvimento com o mar para controlar aquele toco de madeira.
Surfar sem quilha é extremamente dificil.
O caipira precisava de algo mais facil, mais acessivel, por isso colocou a quilha e a quilha acabou com a pureza do surfe.
E tem mais, continuou, Tom Blake era boiola. 
Apaixonou-se pelo Duke e na primeira oportunidade se mudou pro Havai. 
A quilha foi o jeito que ele achou pra chamar atenção do havaiano.
Nessa altura, todos tinhamos sorrisos sacanas no rosto, Derek aproveitou o silencio e emendou, Blake sempre foi um solitario, preferiu a vida reclusa, teve pouquissimas relações com mulheres e era completamente centrado nele mesmo.
Nunca se casou, não teve filhos...Parecia não ter muito interesse por garotas.
Ora, Derek, não uma explicação mais relacionada a hidrodinamica para a criação da quilha ? Ironizou o sujeito que conhecia senhor Hynd de outros carnavais.
Hynd sorriu seu sorriso mais sacana e enfiou uma batata frita goela adentro.
O cara é um provocador nato.
Sua arte, acho eu, é da provocação, tanto quanto o surfe. Melhor dizendo, Hynd usa bastante o surfe como uma forma de provocação, vide o surfe sem quilhas e o fato de ter parado de beber - Na Australia, não beber é ofensa pessoal.
Diz que não assiste mais campeonatos, perdeu o interesse depois de 30 anos sem perder nada, mas abre uma exceção pra ver uma bateria por ano no Pro Junior.
Dois anos atras, fiz minha peregrinação até o pro junior, para minha unica bateria que assitiria no ano. Cheguei na praia, vi Jordy Smith surfar uma onda, virei e fui embora.
Eu tinha visto o futuro do surfe, não havia nada mais pra ver ali.
Nesse ano fiz a mesma coisa, queria saber quem era e como surfava o tal do Medina que todos falavam.
Fui até la para ver o fenomeno Medina. Cheguei na praia, ele remou na sua primeira onda, devia ser oitavas ou quartas de final, mal ficou em pé, caiu de cara na prancha.
Resolvi dar mais uma chance.
Medina surfou duas ondas, uma nota 10 e uma nota 9 e tal.
Ele arrasou completamente um surfista australiano muito competente, Dean Bowen.
Fui conversar com um amigo, juiz da ASP, e ele me disse que Medina vai mudar o jeito de julgar as ondas na ASP.
Em seguida, Derek perguntou como se comportava Medina em ondas boas. Respondi que ainda não sabia, mal tinha visto o garoto surfar ao vivo.
Se ele não souber fazer outra coisa alem de voar, sua carreira vai durar tanto quanto sua terceira contusão, profetizou com habitual insolência.
Esses garotos se machucam o tempo todo. Na primeira, passam batido, na segunda, ficam mais cautelosos, na terceira param de voar.
Vejam a falta que faz uma boa cerveja...
Por incrivel que pareça, esse australiano de Newport é apaixonado por futebol e quis saber as expectativas brasileiras na Copa que se aproximava - estavamos em Abril.
Se Messi jogar o que joga no Barcelona, ninguem ganha da Argentina, disse ele.
Concordei, não sem antes alerta-lo da força que o Brasil alcança em Copas, mesmo com times medianos, como em 1994.
A conversa desviava pra todos lados, absolutamente sem direção, como boas conversas devem ser, até acabar peixe, batatas, bebida e papo.
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